sábado, 3 de fevereiro de 2018

Tem um limite

"Como foi que você se apresentou? Conseguiu ficar menos tímida?", perguntei ávida para saber como ela havia se saído no primeiro dia na escola nova, e mordi meu lanche.

"Eles perguntaram o que eu gostava, qual era meu projeto de vida, essas coisas, mas eu não tenho um projeto de vida, não sei se eu quero mais astronomia, eu gosto de tanta coisa, quero estudar tudo pra saber do que eu gosto mais, sei lá...", e mordeu o lanche.

"Mas você disse isso?", dei um gole no meu suco de laranja com beterraba que estava muito doce.

"Não, eles iam ficar perguntando, aí eu só respondi: astronomia, pra encurtar", ela disse, porque sabia que respostas claras e objetivas, podem tirar você de situações nas quais você é o foco das atenções, e tomou a tubaína.

O assunto mudou, de fato, com 13 anos a gente não precisa, realmente, ter um projeto de vida, mas eu perguntei: "mas não tem algo que você goste muito, eu quis muitas coisas, estudei muitas coisas, mas sempre, desde pequenininha, sabia que queria ser professora, eu brincava disso, eu brincava de professora, você brincava de quê?" e outro gole no suco.

"Eu brincava de princesa", deu um gole na tubaína e eu acho que fiz uma cara, um olhar, que deve ter dito algo, "de princesa da terra média, porque eu sou sua filha, tudo tem um limite quando se é sua filha", deu um gole na tubaína e quase engasgamos de rir.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Meu fornecedor da Praça da Sé

Janeiro... Férias...
Há tempos não via um janeiro assim, nublado, chuvoso... desde que o ano começou posso contar nos dedos de uma das mãos os dias de sol.
Não posso reclamar, estou amando esta temperatura amena para janeiro, mas a preguiça e o tédio aumentam...
Estou aqui, com meus pensamentos, a TV tem poucos canais, programação repetida, já nem sei quantas xícaras de café tomei. Começo a ter fome, ai, essa preguiça me mata, não vou conseguir aguentar, vou ter que sair, ir atrás de mais mercadoria. A leitura é uma fuga, mas até uma certa hora. Escrevo para passar o tempo, mas o meu pensamento voa.
Não tem jeito, começo a ficar impaciente, eu necessito de mais.
Estou longe da Praça da Sé, a mercadoria dos fornecedores daqui do bairro  é de qualidade ruim, já tive muita dor de cabeça por causa disso.
Pelado, meu fornecedor da Praça da Sé, tem o melhor, excelente, sempre me dá uns descontos.
Não aguento, eu preciso, chega de tanto café, já não vou conseguir dormir, preciso de algo mais forte, algo pelo que valha a pena estar acordado.
Calço um sapato qualquer, caminho até a estação de trem, a ansiedade vai me consumindo, será que o Pelado tem novidade? O caminho da baldeação do trem para o metrô na estação Brás parece interminável. Enfim, subo as escadas rolantes em direção à plataforma sentido Barra Funda, duas estações até a Sé. Uma espécie de crise de abstinência toma conta de mim, me faz suar, ou pode ser o clima nublado e abafado pós chuva mesmo.
Saindo do metrô, na Praça da Sé, caminho em direção ao ponto em que Pelado fica. Seu comércio é ilegal, verdade, mas a venda acontece em vários pontos da cidade, todo mundo sabe onde tem. O meu maior problema agora vai ser comprar e ter que voltar pra casa para poder usufruir, não dá para fazer isso no meio da rua. Ai, mas que ansiedade! Cheguei.
"Opa, faz tempo que não passa por aqui". Ao que eu respondo perguntando: " e aí? O que tem de novidade? Queria alguns dos vencedores do Globo de Ouro". E Pelado, meu fornecedor da Praça da Sé, como sempre, nunca falha: "tem sim, é 3 por 10 reais pra você".

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Tal mãe, tal filha


Há um mês a Helena fez 13 anos. Ela foi ao cinema com uma amiga e quando nos encontramos ela disse: mãe, eu tomei um capuccino e gostei.
Pronto, agora foi.
Muito antes de eu ficar grávida eu assistia à Gilmore Girls, traduzido para o português com o título Tal mãe, tal filha. Eu amava e sempre pensava, vou ter uma filha e nossa relação vai ser assim.
Pois, tem sido assim, a gente fala sobre tudo, ela, às vezes é mais ajuizada do que eu mesmo. Só faltava o café. Sim, tomar café juntas, como as Gilmore girls.
Agora a gente vai. Essa foto é do nosso primeiro café juntas. Ok, é capuccino, mas já é um começo. Antes ela ia aos cafés comigo e tomava água. Há um certo quê de diferente quando você se senta com alguém pra tomar um café, parece que deve ser um outro tipo de conversa, mas na verdade não é, só que é.
Vou aos cafés com amigas e amigos, certa de que nossa conversa no café é diferente, tem outro ritmo, outra temperatura, outra trilha sonora, é diferente das conversas em outros lugares, mesmo que assunto seja o mesmo.
Aquela coisa que você pode marcar com antecedência: vamos tomar um café? Ou que você pode estar simplesmente andando e diz: vamos tomar um café? Acho que tem algo como olhar nos olhos, você não está andando e conversando lado a lado, nem tomando cerveja ou vinho e olhos ficam brilhantes. É outro olhar, outro ritmo, outra temperatura...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Foi Intenso



No começo do ano escrevi uma carta. Era uma proposta para a criação de uma peça teatral, da Cia. Intenso, da qual comecei a participar este ano.
Depois de 20 anos sem atuar, resolvi voltar ao teatro.
Thiago Franco, o diretor mediador, posso chamar assim, articulou lindamente todas as cartas de todos os participantes do grupo e criou um espetáculo emocionante e intenso.
A única diretriz inicial era a de que a carta relatasse uma travessia. Eu fiz a minha, na época ainda lidando com essa minha jornada. Não foi fácil, mas, agora, sinto que já me livre desse "um anel" no fogo da Montanha da Perdição em Mordor e posso compartilhar com todos.
Segue minha carta, minha travessia...



São Paulo, 31 de janeiro de 2017.
        
Travessura: ação de pessoa travessa. Travessa que também é sinônimo de travessia. Mesma grafia, só muda o ê ou é. Sou muito travessa então, no sentido de tantas travessias que travessei, não só de travessuras, mas também. Travessias de todos os tipos, alegres, tristes, introspectivas ou para o mundo.
         Quando penso em travessia, logo me vem à mente a saga do “um anel”, sabe, aquele do Sauron? Afinal, o que não são algumas de nossas travessias, senão variações da jornada até a Montanha da Perdição em Mordor para destruir o “um anel” no fogo? Mas que papo mais nerd...
         Mas foi isso, numa das inúmeras vezes em que eu estava assistindo O Senhor dos Anéis me dei conta da metáfora, quais anéis eu já tinha destruído? Sim, esta travessia que vou narrar aqui não é alegre, embora possa ter um final feliz, depende do ponto de vista. Às vezes parece que ainda não larguei o “um anel”, ou que ele ainda está caindo. Então, vou narrá-la em terceira pessoa.
         Era uma vez uma mulher que curtia vida adoidado. Uma noite ela tinha que decidir entre ir numa festa com amigos ou ir no boteco de outra amiga. Ela foi no boteco, era mais perto, dava para ir a pé. Então, lá ela conheceu “um sujeito”. Não era a primeira vez que ela conhecia um sujeito, lembra, ela estava curtindo a vida adoidado. Mas esse era o “um sujeito”. Então ela se apaixonou. Também não era a primeira vez, ela vivia se apaixonando, mas dessa vez ela não desapaixonou, não enquanto podia ou devia.
         Por um lado ela estava cansada de curtir tanto e pensava na ideia de ser mãe, de esposa não muito, mas quando percebeu, o “um sujeito” estava morando na casa dela, até hoje ela não sabe direito como isso aconteceu. Mas ok, ela dizia que ele era diferente dos outros: “chega de artistas aquarianos e piscianos, esse era corretor de imóveis capricorniano”. Mas o que esperar de um namoro que começa num boteco, sem ofensas.
         E começa a jornada a Mordor – me desculpem os que não conhecem O Senhor dos Anéis, mas depois eu explico. O “um anel” começou a pesar em seu pescoço, literalmente. Era um relacionamento tóxico. E sim, ela ficava invisível quando o usava, invisível para os amigos e familiares que não sabiam o que estava acontecendo, ou não queriam ver.
         Mas ela também não sabia direito o que estava acontecendo, ela acreditava que violência, só existia física. Como ela nunca sofrera esse tipo de agressão, não sabia como lidar. Fora a vergonha que sentia, pois mulheres que passam por isso são aquelas que não tiveram oportunidades na vida, não estudaram tanto e por isso não sabem como se defender, ou as que não ligam, ou como dizem por aí: as que gostam mesmo de apanhar. Mais um dos truques do “um anel”.
         Ela não gostava de apanhar, não apanhava, já que ela também não o confrontava, afinal, o “um sujeito” era, tipo assim, bem grande, gritava bem alto, dava era medo mesmo. Ele não a atacava, mas quebrava coisas, chegou a quebrar o próprio dedo na parede. Ela então o carregava como um fardo.
         Mas, todo viajante tem seu companheiro, todo Frodo tem seu Sam. Embora ela seja o Sam sempre que faz teste de personalidade no Facebook e, na sua vida, sim, ela tem esse perfil, dessa vez era a sua carga e só ela poderia chegar lá e por fim em tudo isso. Mas o que seria de nós sem nossos companheiros de travessia, não é mesmo? Um dia, ou melhor, numa noite, daquelas que ela apelidou de “noites do terror”, enquanto o “um sujeito” gritava todo tipo de xingamentos, sua filha, ah sim, ela teve uma filha com o vendedor capricorniano, durante essa travessia, sua filha com 10 meses de vida estava chupando o dedo e olhando tudo, como se fosse essa a vida mesmo, normal assim. Foi como quando o Frodo caído, nas planícies de Gorgorth, não conseguindo mais se levantar, não acreditando mais ser possível seguir em frente e destruir o “um anel”, o Sam, melhor companheiro de todos, uma vez que não pudesse carregar o anel ele mesmo, levanta e carrega o próprio Frodo. Não foi assim que nossa travessa viu na hora, claro, devastada por 3 anos de relacionamento abusivo, ela só pensou que, vendo aquilo, a filha iria um dia arrumar um sujeito assim pra namorar, e ela não poderia dizer nada, já que esse era o exemplo. Nesse momento, carregada pela força da filha, ela foi e deu um basta, lançou o “um sujeito” para fora, para fora de sua casa, fora de sua vida.
         Sem o peso do “um sujeito”, então, ela começou a perceber o que tinha sofrido, começou a analisar essa travessia, aprendeu e vem aprendendo mais sobre si mesma e sobre sororidade (embora o Word não reconheça essa palavra) e se sentia pronta e livre para novas travessias, travessas e travessuras. Embora, assim como Frodo, de certos ferimentos ela nunca irá se recuperar totalmente.
         Caro leitor, desculpe-me pela analogia com a obra de Tolkien, talvez, caso você não a conheça, não consiga captar totalmente as metáforas escritas aqui, ou talvez as capte de outra forma, mas isso foi uma tentativa de deixar essa travessia mais leve para nós.

         Um abraço,
Val.

domingo, 23 de novembro de 2014

Campos Gerais

O que eu aprendi?
Poxa, que ano intenso...
Estou eu no XXIV Confaeb em Ponta Grossa, mais uma mesa redonda, e a professora Rejane Coutinho apresenta os outros professores como em qualquer outra mesa de qualquer outro congresso que eu já tenha ido mas, tem uma algo a mais, depois de um breve currículo ela diz o que aprendeu com cada um deles. Ah, eu achei isso tão bonito.
Parei pra pensar no que aprendi ao longo desse pouco mais de um ano tão intenso na minha vida, morar fora do país, conhecer tantas coisas, ver minha filha amadurecendo, decisões que tenho tomado... A vida acadêmica pode ser bonita e generosa quando a gente consegue relacioná-la a outras esferas da vida pessoal.
Eis que a professora Rita Bredariolli inicia sua fala. Ela vai ler, eu pensei, geralmente não gosto, confesso, mas foi tão diferente, ela trouxe uma história da Arte/educação (bem, a mesa era sobre isso, História, meu lado historiadora sempre fica feliz) e tão inteligível, racional e poética, tudo junto ao mesmo tempo agora!
Dá-lhe intensidade, eita ano!
Até que, em sua fala, coube uma homenagem ao professor Nicolau Sevcenko, falecido em 2014, quando eu ainda estava morando em Londres.
Nossa, eu já até tinha me esquecido de sua morte, mas nunca me esquecerei dele é certo, pois a minha relação com as pessoas marcam muito mais a minha vida do que a desrelação (pensando no Manoel de Barros, falecido há alguns dias).
Assim, que hoje, pela primeira vez na minha vida eu me emocionei numa fala/palestra/conferência/mesa-redonda.
Não que eu nunca tivesse sido arrebatada pela emoção em outros momentos da vida acadêmica, poxa, fui aluna do Nicolau, isso já poderia bastar, mas a professora Rita me fez chorar.
A homenagem ao professor Nicolau, terminada com um texto de outra aluna dele, Juliana (que me esqueci o sobrenome), Nicolau Sevcenko e a bolinha de sabão, texto super compartilhado no facebook quando ele morreu, me fez chorar, de novo.
Mas por que essa emoção toda? O que eu aprendi com isso?
Essa é uma pergunta recorrente, especialmente quando choro...
De modo que, nesse ano intenso, parei e entendi mais detalhes da minha função no mundo (venho pensando muito nisso nesse ano), o transe da sala de aula, essa admiração que as aulas de Nicolau me causara, outros professores, pessoas iluminadas que tomei de exemplo para minha vida. Revi e pensei que a grande maioria de exemplos de vida para mim foram professores (isso diz muito).
Com Nicolau aprendi, entre outras coisas, a transitar pelos mundos da história, da arte, imagem, escrita, tudo no plural.
Me entendi historiadora e educadora.
O que aprendi e o que venho aprendendo com tudo isso, com essa intensidade e solidão desta etapa de minha vida de doutoranda, é relacionar tudo e todos ao meu processo no mundo. Penso que palavras como auto-conhecimento, generosidade e maturidade cabem aqui.
Obrigada professores e amigos queridos... Muitas bolinhas de sabão para vocês.